A ciência ameaçada
5/10/2012

Artigo do diretor de Pesquisas Científicas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Rogério Gribel, aborda a necessidade de expansão das coleções vivas do JBRJ para que esta possa cumprir sua missão institucional.

O Brasil é considerado o país com a maior diversidade de espécies de plantas no mundo. As plantas sustentam as outras formas de vida na Terra, promovendo serviços ambientais para a humanidade, como regulação do clima, conservação dos solos, manutenção da fauna e melhoria na qualidade do ar e das águas. Porém, muitos dos ecossistemas brasileiros estão ameaçados.

Os jardins botânicos do mundo têm como meta promover o conhecimento científico da flora, o entendimento público sobre o valor das plantas e a importância das questões ambientais, contribuindo para a formação de cidadãos conscientes em um planeta em rápida transformação. Nesse esforço se insere o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) – instituição bicentenária de reconhecimento internacional na área de pesquisa científica, ensino e difusão de conhecimento sobre a flora brasileira.

Considerando o cenário de mudanças climáticas e pressão crescente sobre os biomas do país, os desafios no futuro próximo serão imensos. O JBRJ tem contribuído para que o país cumpra metas assumidas com a ONU no âmbito da Convenção para a Diversidade Biológica (CDB). A criação do Centro Nacional de Conservação da Flora, a publicação da Lista de Espécies da Flora Brasileira, a elaboração do Livro Vermelho de espécies ameaçadas e de protocolos de conservação, além da descoberta e estudo de novas espécies, são parte dessa tarefa.

Para o cumprimento de sua missão, o JBRJ necessita cultivar, conservar, pesquisar e apresentar ao público exemplares das espécies da flora nacional, especialmente aquelas ameaçadas de extinção, além de outras milhares de espécies raras, de importância etnobotânica, ornamental, medicinal etc. No entanto, enquanto o número de espécies ameaçadas aumenta devido à rápida ocupação do território nacional, as áreas disponíveis no JBRJ para seu cultivo, pesquisa e conservação vêm se restringindo em função de ocupações irregulares em sua área tombada.

As áreas do antigo Horto, e que estão dentro do perímetro tombado da instituição, eram recobertas, desde o início do século XX, por experimentos científicos com espécies arbóreas. Isto é comprovado de forma inquestionável, inclusive por meio de foto aérea, no livro “Contribuição à Dendrometria das essências Florestais” de Guilherme de Almeida, publicado em 1949, que descreve e mapeia os talhões florestais implantados na época. Esses experimentos pioneiros foram paulatinamente suprimidos, principalmente a partir da década de 60, para construção de moradias e pontos de comércio, além da instalação de um prédio do SERPRO e de uma subestação da Light.

Como resultado, o JBRJ encontra-se atualmente engessado quanto às possibilidades de expansão de suas coleções científicas vivas e das áreas para visitação pública, que já chega a mais de 700 mil visitantes por ano. Os pesquisadores não mais trazem, de suas inúmeras expedições, sementes e mudas de árvores para plantio, pois não há onde cultivá-las.

A reintegração ao JBRJ das áreas tombadas do Horto e a restauração da sua integridade territorial e paisagística é essencial para que a instituição possa cumprir suas importantes missões na área científica, conservacionista e educativa. Isso permitirá às gerações futuras conhecer e valorizar ao menos uma parcela da magnífica biodiversidade de que a natureza nos proveu nesta parte do planeta chamada Brasil.

Rogério Gribel, PhD, pesquisador em genética e ecologia vegetal, diretor de Pesquisas Científicas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Artigo publicado no Jornal da Ciência de 4/10/2012 e no jornal O Globo em 26/9/2012.

 

 

 

 

 

 

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