IV Encontro de Ilustradores Científicos começa com seminários
5/4/2013

Teve início, na manhã de segunda-feira, 4 de novembro, o IV Encontro de Ilustradores Científicos, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Esta edição do evento tem como tema “Mata Atlântica – Arte e Ciência” e está sendo organizada pelo programa de Ilustração Botânica da Escola Nacional de Botânica (ENBT/JBRJ) em parceria com o curso de Belas Artes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

A mesa de abertura foi composta pela presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Samyra Crespo, pela reitora da UFRRJ, Ana Maria Dantas, pelo pesquisador Haroldo Lima representando o diretor de Pesquisa do JBRJ, Rogério Gribel, pela diretoria da ENBT Neusa Tamayo, pelo responsável pela organização do III Encontro, Zenildo Miranda (Embrapa/Brasília), e pelo presidente do IV Encontro, Paulo Ormindo.

Samyra Crespo deu as boas vindas a todos e se disse admiradora de longa data da tradição dos naturalistas e da arte da ilustração científica. Para ela, essa tradição tem que conversar com a tecnologia contemporânea. “Nosso grande desafio é encontrar a ponte entre esse mundo da arte e da ciência para o mundo da contemporaneidade, da tecnologia, e conquistar as melhores vocações para a ilustração científica. Parte da tarefa do Jardim Botânico é fortalecer essa tradição”, disse Samyra.

A reitora da UFRRJ, Ana Dantas, ressaltou a riqueza das discussões que serão desenvolvidas durante o evento e a riqueza do encontro entre arte e ciência: “a arte nos ajuda a ver, de uma forma mais bela e mais efetiva, o que a ciência tem a nos ensinar. A UFRRJ iniciou seu curso de Belas Artes em 2010.

O pesquisador Haroldo Lima lembrou que a pesquisa no Jardim Botânico do Rio de Janeiro sempre esteve ligada à ilustração científica. “Barbosa Rodrigues transformou essa arte também numa forma de mostrar e divulgar a diversidade brasileira”, disse, acrescentando que o momento atual é oportuno para discutir o futuro dessa atividade e como ela pode ajudar a despertar a consciência sobre a importância da biodiversidade da Mata Atlântica. “Não estamos só fazendo ciência e arte, estamos tentando mudar o mundo. Não se pode abrir mão desse engajamento”, reiterou Haroldo.

Para Zenildo Miranda, o Encontro é a ocasião “onde conhecemos várias perspectivas da ilustração científica, fazemos amizades, consolidamos conceitos. Fundamentalmente, o momento do encontro é também um momento de ilustração”.

O curso de Ilustração Botânica da ENBT é o mais antigo curso de extensão da Escola e já formou mais de 200 alunos. A informação veio da diretora da ENBT, Neusa Tamayo, que elogiou o trabalho de Paulo Ormindo e Maria Helena (Malena) Barretto como organizadores do curso. Neusa lembrou que todos os ilustradores que hoje trabalham no JBRJ passaram pela Escola e que o próprio Jardim, rodeado por Mata Atlãntica, é uma fonte de inspiração para essa arte.

O presidente do IV Encontro, Paulo Ormindo, destacou o papel da ilustração científica como registro do que acontece com a Mata Atlântica, bioma mais devastado e mais ameaçado no país e falou da atualidade da ilustração científica em sua busca de uma expressão estética contemporânea.

Seminários de abertura abordam Ilustração Científica na História e seu papel na conservação

O historiador Federico Tognoni, da Universidade de Pisa, Itália, e o pesquisador Gustavo Martinelli, coordenador do Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora/JBRJ) deram início aos seminários do IV Encontro de Ilustradores Científicos. A mediação da mesa ficou a cargo do professor Paulo Ormindo.

História – Federico Tognoni apresentou um panorama da ilustração científica desde o Renascimento até o século XVIII. Citando Panofsky, um dos mais importantes estudiosos da história da Arte, ele demarcou o Humanismo como o momento de afirmação da ilustração científica, quando teve início a recuperação e o estudo dos clássicos gregos e romanos, com a redescoberta de autores como Plínio e Teofrasto. “A análise acurada dos textos clássicos levou também à busca de uma observação direta da natureza”, apontou o historiador. Naquele período, distinguiram-se Leonardo da Vinci e Albrecht Dürer, com trabalhos que demonstram grande atenção aos pormenores, como Il Giglio (Da Vinci) e La Grande Zolla (Dürer).

Entre 1530 e 1550, foi a área editorial que “ganhou a partida” da ilustração científica. E foi com O. Brunfels que, pela primeira vez em um texto científico, a ilustração deixou de lado a tradição em nome da observação, o que pode ser visto na ilustração Malva (Herbarium, 1536), quando ele retrata as folhas murchas da planta.

Devido à novas exigências de estudo, que demandavam a correta identificação das espécies, e pela dificuldade que representava fazer essa identificação somente com o uso de texto, logo nasceu, dentro dos jardins botânicos, a necessidade de criar ateliês de ilustração científica, ainda no século XVII. Dessa tradição, que continuou pelo século seguinte, surgiram importantes nomes da ilustração científica, entre os quais Tognoni destacou G. Dyckmann, Daniel Froeschel (Jardim Botânico de Pisa), J. Ligozzi, Daniel Rabel, Nicolas Robert, Pierre Joseph Redouté, G. D. Eheret e Robert Thornton.

Conservação – O pesquisador Gustavo Martinelli falou sobre a arte e ciência – conectando a conservação da biodiversidade. Ele fez uma apresentação da situação da Mata Atlântica e das iniciativas de conservação. Embora restem somente de 8 a 12% do bioma, o ritmo de desmatamento da Mata Atlântica se reduziu drasticamente nos últimos 30 anos.

Um dos grandes problemas é que há muitos remanescentes de Mata Atlêntica que formam “ilhas” isoladas. Hoje se sabe que é preciso criar corredores para que essas “ilhas” de vegetação se conectem, pois de outro modo elas tendem a se extinguir naturalmente, quando não destruídas diretamente pelo homem. “Temos 12% das espécies de plantas desse bioma ameaçadas de extinção”, revelou Martinelli.

O pesquisador chamou os ilustradores a se engajarem na conservação da biodiversidade em colaboração com os cientistas. Ele entende que os ilustradores podem contribuir com a comunicação científica, a divulgação científica e a consciência sobre a importância da conservação. “Os ilustradores científicos podem ser catalisadores e indutores visuais para promover não só a informação científica mas também a conservação”.

Para Martinelli, a palavra mágica é integração. Ele reconhece que existem espaços institucionais para essa integração, mas eles precisam ser ampliados. “Artistas e cientistas representam o mundo com linguagens diferentes que se complementam e ambas são formas de expressão do conhecimento. Daí a necessidade de criar as bases para maior colaboração entre os dois domínios e evidenciar as possibilidades de compartilhar estratégias e práticas de ambos os lados. Um exemplo disso seria a criação de uma base de dados de ilustrações que possa servir como referência para o cientista saber que espécies já foram ilustradas”, concluiu.

 


 

 

 

 

 

 

 

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