Viagem e expedições fazem da Botânica uma carreira radical
15/4/2011

No dia 17 de abril é comemorado o dia da Botânica. A data homenageia o naturalista alemão Cari Friedrich Phillipp von Martius.

Bárbara Secco

FotosOs botânicos são conhecidos por suas pesquisas em laboratórios e publicações científicas. Mas, para publicar um artigo ou para que uma nova espécie vegetal seja descoberta, os botânicos precisam sair pelo mundo, pesquisando os diferentes modos de vida das plantas.

Um botânico que quer ir a campo precisa ter espírito aventureiro, gostar de viajar e estar preparado. Longas caminhadas, noites mal dormidas, carros atolados, insetos e animais selvagens fazem parte da rotina de um pesquisador. O botânico Marcus Nadruz, que está no JBRJ desde 1983, faz parte do time dos “pesquisadores aventureiros”. Ele já perdeu a conta de em quantas expedições esteve. Atualmente, é responsável pelo projeto que complementará o levantamento da flora do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro.

Para este projeto, Nadruz vai quatro vezes por ano ao Parque. Entre as várias expedições, já enfrentou alguns “apuros”, como inesperados -2ºC com equipamentos que não suportavam tanto frio. “Não consegui dormir à noite. Mesmo dentro da barraca estava muito frio. Assim que amanheceu, resolvi sair para me esquentar e percebi que meus pés estavam praticamente congelados. Por cima da barraca se formou uma crosta de gelo. Quando consegui mexer meus pés novamente, eu e o pesquisador, que também estava coletando amostras, resolvemos voltar para a base”, relata.

Marcus se prepara durante todo o ano para as expedições, fazendo natação e musculação. Quando começou a estagiar na parte de pesquisa do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, não imaginava o quanto poderia ser radical. Formado em Ciências Biológicas, fez o mestrado e o doutorado na área de Botânica. Atualmente, é pesquisador da família araceae, ou aráceas, grupo de plantas que inclui o lírio, o copo-de-leite e o tinhorão. Graças à pesquisadora Graziela Barroso, que foi sua orientadora na pós-graduação, Nadruz conheceu um pesquisador de Kew Gardens (Jardim Botânico de Londres), especializado nesta mesma família de plantas. Juntos, fizeram uma grande pesquisa pela Inglaterra e pelo Brasil, dando cursos e palestras em cidades como Ilhéus, Salvador, Recife, Rio de Janeiro, João Pessoa, Fortaleza e São Luís.

Outra expedição inesquecível foi na Reserva Natural da Vale, em Linhares, no Espírito Santo. A região é considerada a maior reserva de mata atlântica em relevo plano no Brasil. Lá, entre as várias amostras recolhidas, Nadruz encontrou espécies novas de antúrios, que receberam nomes de personalidades homenageadas no Prêmio Brasileiro Imortal, em 2008. A eleição dos vencedores contou com mais de 250 mil votos e suas descobertas passaram a receber o nome da escritora Rachel de Queiroz, da ex primeira-dama Ruth Cardoso, da poetisa Zeneida Lima e do jornalista José Hamilton Ribeiro.

Todo botânico que vai para campo, possui uma caderneta para anotar a localização e as características de cada amostra recolhida. Essas informações são importantes para as pesquisas que serão feitas nas amostras conservadas nos herbários. É como se fosse uma competição consigo mesmo, em que o pesquisador procura, a cada viagem, aumentar seu número de amostras coletadas.

O Herbário RB, do JBRJ, foi fundado em 1890 pelo então diretor do Jardim Botânico, João Barbosa Rodrigues. A coleção abrange fungos e plantas, com mais de 500 mil amostras. Dessas, 2518 foram coletadas por Nadruz, em suas expedições por várias cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Amazonas e pela região Nordeste. O recorde é do pesquisador Gustavo Martinelli, que já acrescentou ao Herbário RB cerca de 20 mil amostras, um dos maiores números entre os botânicos brasileiros.

O Jardim Botânico do Rio de Janeiro oferece pós-graduação na área, na Escola Nacional de Botânica Tropical (ENBT), que em 2011 completa 10 anos de fundação. A ENBT é voltada para pesquisa nas áreas de conservação, diversidade vegetal e ecologia de ecossistemas, atraindo principalmente graduados em biologia, ciências biológicas e geografia. O corpo docente é formado, principalmente, por pesquisadores do JBRJ. Atualmente, a ENBT conta com 54 estudantes, entre mestrandos e doutorandos, e quase 100% dos alunos contam com algum tipo de bolsa.

Nadruz já deu aula no ensino médio, mas descobriu sua vocação entre os livros e as pesquisas de campo: “Já cheguei a lecionar em escola, mas trabalhar no Jardim Botânico é tudo de bom”. Entre pesquisas, anotações de expedições e publicações, o pesquisador guarda em sua sala colchonetes e outros equipamentos de viagem, sempre a postos para a uma próxima aventura botânica.

 

 

 

 

 

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