Biodiversidade mundial será definida pela sociedade
15/12/2010

Em palestra no Espaço Tom Jobim em 11 de dezembro, Patrick Blandin, do Museu Nacional de História Natural da França, falou sobre o papel de cientistas e instituições científicas no contexto de incerteza em que decisões cruciais para a biosfera têm que ser tomadas.

Louise Simões

A diversidade é o que garante a adaptabilidade da vida para condições futuras. É a memória, o registro da vida, do qual esta depende para fazer frente às mudanças e continuar. E, como alerta o professor e pesquisador francês Patrick Blandin, o grau de biodiversidade que teremos será uma escolha social, embora a coletividade só tenha se dado conta disso há pouco tempo.

Convidado pelo Museu do Meio Ambiente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Blandin falou, na sexta-feira (11/12), sobre as responsabilidades de museus e outras instituições de produção e divulgação da ciência nas discussões que envolvem a conservação da biodiversidade. Ele ressaltou que as decisões nessa área serão tomadas em um contexto de incerteza científica, uma vez que os cientistas não têm respostas para muitas das questões que o tema da conservação levanta. Isso significa que não há como descartar a dimensão política nas escolhas que serão feitas. "Os políticos não podem alegar que o perito afirmou algo e que portanto não há mais discussão. Não é a ciência que encontra as soluções e decide, e sim os cidadãos e as autoridades", lembrou.

Cabem aos cientistas e às instituições de ciência, porém, grandes responsabilidades. Uma delas, segundo Patrick Blandin, é a de compartilhar o conhecimento produzido e desenvolver esse saber com os outros setores da sociedade. "Precisamos trazer o conhecimento científico para cultura geral", afirmou. Os cientistas devem ajudar os demais cidadãos e os governantes a entenderem o funcionamento da biosfera na perspectiva de sua evolução, procurar esclarecê-los sobre os desdobramentos das ações humanas na natureza e sobre o que pode acontecer à biosfera como resultado dessas ações, deixando claros os limites do conhecimento científico. Um dos maiores desafios nessa tarefa, para o pesquisador, é o estabelecimento de indicadores sobre a biodiversidade que sejam de fácil compreensão para o cidadão comum.

Um dos mais conceituados pesquisadores de borboletas sul-americanas do mundo, o professor Blandin participou, em suas atividades no campo da divulgação científica, da concepção da Grande Galeria da Evolução do Museu Nacional de História Natural, em Paris. Nessa ocasião, o objetivo era mostrar como o homem interfere no processo de evolução biológica das espécies. Com a experiência da Galeria, ele se deu conta de que não basta disponibilizar informações e dados para o público. É preciso promover discussões sobre os valores que irão nortear as decisões a serem tomadas no campo da conservação da biodiversidade. Essa percepção fez com que Blandin se envolvesse, como co-presidente, da Iniciativa Ética da Biosfera, lançada pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), que busca incorporar princípios de ética ambiental em ações de conservação.

Durante sua apresentação, o pesquisador traçou um panorama das três principais linhas ideológicas que têm, em geral, orientado as ações e decisões da sociedade relativas à biodiversidade, apontando que nenhuma delas é capaz, isoladamente, de dar conta das questões éticas que se colocam hoje. Uma dessas linhas, o antropocentrismo, reduz os critérios de decisão às necessidades e interesses humanos, numa forma de racionalismo utilitarista. Em outra vertente, o biocentrismo considera o valor intrínseco das espécies e dá importância a todas as formas de vida existentes. Já o ecocentrismo defende a manutenção da integridade e beleza dos ecossistemas, mas ainda se prende a uma perspectiva de equilíbrio da natureza quando, para Blandin, faz-se necessário focar na adaptabilidade desta para a mudança. O pesquisador defende que o homem precisa encontrar maneiras de co-evoluir com o restante da natureza, e não há como escapar da responsabilidade implicada nas escolhas a serem feitas. Assim, para Blandin, a primeira pergunta que devemos nos fazer é "o que queremos do homem?".

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