DIA 21/10/2009

Manhã

Seminário sobre Barbosa Rodrigues começa com a geografia em foco

O professor Luís Antônio Teixeira, da COC/Fiocruz, o diretor da ENBT, Gilberto Amado, e o presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Liszt Vieira.Teve início, nesta quarta-feira, 21/10, às 9h30, o Seminário João Barbosa Rodrigues: um naturalista brasileiro, que acontece na Escola Nacional de Botânica Tropical – ENBT/Jardim Botânico do Rio de Janeiro, no Horto. A mesa de abertura foi composta pelo presidente do Jardim Botânico, Liszt Vieira, pelo diretor da ENBT, Gilberto Amado, e pelo professor Luís Antônio Teixeira, da Casa de Oswaldo Cruz – COC/Fiocruz, parceira do Jardim na realização do evento.

Liszt Vieira fez uma apresentação geral do tema do seminário, destacando aspectos atuais da obra de Barbosa Rodrigues (1842-1909) e a importância do naturalista para as pesquisas botânicas no Brasil. Ele ressaltou, entre outras coisas, o papel de Barbosa como precursor de uma visão integrada homem-natureza. Descendentes de Barbosa Rodrigues também marcaram presença, homenageando a figura do ilustre cientista do fim do século XIX e início do XX.

Uma história do império brasileiro sob a perspectiva da geografia

A pesquisadora Magali Romero de Sá (COC/Fiocruz) apresenta o professor Antonio Carlos Robert de Moraes (USP), primeiro palestrante do dia.O período em que João Barbosa Rodrigues realizou seu trabalho foi contextualizado na conferência de abertura, feita pelo geógrafo e cientista social Antonio Carlos Robert de Moraes, doutor em Geografia Humana e professor titular da Universidade de São Paulo. Ao falar sobre território e territorialidade no Império do Brasil, Robert apontou a importância da dimensão espacial na formação histórica do Brasil, seja em sua dimensão concreta, de apropriação de novas terras, seja em sua dimensão simbólica.

Convite – “Ler a história brasileira com os olhos da geografia aponta várias possibilidades de estudos a serem feitos nessa área. Minha palestra é um convite para esse amplo universo de pesquisa”, disse Robert, destacando que o Brasil é um dos poucos países do mundo hoje que têm intensa mobilidade geográfica – de expansão dentro de seu próprio território, com grande velocidade de ocupação. Basta lembrar de Brasília, fundada em 1960 e que tem hoje 4 milhões de habitantes, ou da região de Serra Pelada.

Conquista – Mas como isso começou? O geógrafo partiu do conceito de colonização – entendida como conquista territorial que envolve apropriação de espaço, submetimento de populações e exploração de recursos – para falar da legitimação dos domínios territoriais durante e após a independência brasileira. Nesse aspecto, “houve pouca alteração na passagem de colônia para império – o território é uma herança colonial”, afirmou, apontando que o momento histórico, após a queda de Napoleão Bonaparte, favoreceu a rápida aceitação das pretensões da casa de Bragança sobre o território brasileiro no novo estado independente.

Vazios econômicos – Porém, utilizando a terminologia do mestre Milton Santos, Robert, chamou a atenção para o fato de que apenas um quarto desse território pretendido era efetivamente território usado, isto é, em que havia efetiva apropriação econômica do espaço articulada à produção colonial e pós-colonial. Os três quartos restantes constituíam “fundos territoriais”, isto é, áreas sob controle estatal brasileiro, mas sem ocupação produtiva.

Construção – A integridade do território, com o controle desses fundos territoriais e sua “conquista” – com tudo que ela envolve, ainda nos dias de hoje, de violência, submissão, exploração e escravidão, era uma das preocupações centrais do estado, que ao se denominar como Império já demonstrava seu caráter expansionista – ainda que dentro de seus próprios domínios. Assim, destaca Robert, uma ideia que atravessa a nossa formação nacional é a de que o Brasil é um país a se construir. E essa construção se relacionava então com a expansão da rede econômica que tinha como centro o Rio de Janeiro.

Missão do estado – A ideia que dava base a isso era a de civilização. A missão que o recém-criado estado brasileiro se colocava era a de civilizar os sertões, de tirar esse espaço à natureza. “A marcha do café em grande parte se fez em terras 'virgens', ou seja, avançou sobre áreas da Mata Atlântica no século XIX. Processo similar ocorreu em Santa Catarina, na serra gaúcha, nos planaltos do Brasil meridional e no sul da Bahia no transcorrer daquele século, sem falar na Amazônia e no Centro-Oeste no século XX”, disse o geógrafo.

Campo de estudo – O centralismo do estado para “costurar” economias tão regionalizadas era defendido na época por muitos autores. Para dar conta dessa tarefa, o estado tinha que realizar uma série de ações, como promover expedições para conhecer e mapear esses territórios e seus recursos. Não foi à toa que surgiram instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Para o palestrante, as instituições que tiveram esse tipo de atuação naquele período constituem um campo de pesquisas ainda pouco explorado na atualidade.

Identidade – Interessante notar que a adoção do território como foco do projeto imperial brasileiro se dava num contexto em que era difícil encontrar uma identidade baseada na noção de nação, que passava então por fortes questionamentos, inclusive na Europa. “Consolidou-se assim a ideia de que o Brasil era um espaço mais do que uma sociedade, um território mais do que uma nação. E a tutela sobre o povo era aceitável para que a integridade do espaço fosse mantida”, enfatizou Robert.

Povo – Nesse sentido, ele apontou que um dos temas centrais de discussão no século XIX era – com que povo contamos para construir o país? Os otimistas em relação ao futuro do Brasil miravam, mais uma vez, no território de grandes dimensões e riquezas naturais. Os pessimistas viam o povo como um problema. Essa discussão iria influenciar diferentes visões com relação aos indígenas, assim como a política de imigração e a questão sobre o que fazer com a população escravizada em vias de ser liberta.

Novas questões – Também sobre esse aspecto, segundo o palestrante, existem hoje muitas possibilidades de pesquisa em História e Geografia. Para Robert, a história da formação territorial do Brasil é muito reveladora da história da sociedade brasileira. Daí abre-se uma temática bastante atual. Se até meados do século XIX, a ideia central que guiava a ação do estado era a de civilização, depois, inclusive no século XX, tem lugar a ideia de modernização. Mas trata-se de modernização do território – com estradas, hidrelétricas e assim por diante, e não modernização voltada ao povo, com ênfase, por exemplo, na educação. “Talvez agora a ideia predominante seja a de globalização?”, pergunta-se o geógrafo.

 

Tarde

Mesa: A sciencia amabilis de Barbosa Rodrigues

Coordenada pelo pesquisador Leandro Freitas, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a primeira mesa-redonda do Seminário João Barbosa Rodrigues: um naturalista brasileiro contou com duas palestras bem diferentes. Enquanto o botânico William Rodrigues, da Universidade Federal do Paraná – UFPR, falou sobre o período da vida do naturalista que antecedeu sua nomeação como presidente do JBRJ, o geógrafo Sérgio Nunes analisou a relação entre ciências sociais e ciências naturais no contexto em que Barbosa produziu sua obra.

De cientista conceituado a vendedor de remédio hepático: Barbosa Rodrigues antes de 1890

Foto de Barbosa RodriguesEspecialista em taxonomia e florística, William Rodrigues, abriu a mesa redonda com a palestra Estudos botânicos de Barbosa Rodrigues na Amazônia, ressaltando dados biográficos do naturalista e , principalmente, as contribuições dele nos campos da Botânica, da Arqueologia e da Antropologia, decorrentes de seus longos períodos de pesquisa no norte brasileiro.

Primeiros estudos – Integrante da Academia de Letras da Amazônia, foi justamente ao ocupar a cadeira cujo patrono é Barbosa Rodrigues que William se interessou mais profundamente pelo legado – e pela história – do naturalista. Barbosa Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro em 22 de junho de 1842, na rua do Lavradio, mas foi educado em Minas Gerais. Ao retornar ao Rio, diplomou-se em Engenharia pela Escola Central do Império e, posteriormente, fez parte do quadro de professores do Colégio Pedro II. Por influência do Barão de Capanema e da afinidade que mantinham, bem como de estreitos laços com os botânicos Francisco Freire Alemão Cysneiros e Frei Custódio Serrão, iniciou seus estudos em Botânica e Geologia.

Excursões e expedições – “Seus conhecimentos sobre orquídeas começaram a ser aprimorados em 1869, quando conviveu com importantes botânicos suecos e herborizou nas serras das Minas Gerais”, contou William. Prosseguindo seus estudos, Barbosa excursionou ainda pelo Espírito Santo, Bahia, Ceará, Paraíba e Pernambuco, antes de chegar ao Pará em 1871 e no Amazonas em 1873. Todas essas excursões foram publicadas como relatórios dois anos mais tarde, constituindo uma importante referência para diversos outros pesquisadores interessados na flora e na geologia brasileira.

Acusações – O pesquisador William Rodrigues, relatou também a difícil fase vivida por Barbosa Rodrigues quando, ao retornar das suas excursões amazônicas, foi demitido por razões políticas do Colégio Pedro II, onde era professor de desenho, sob acusação de ser um “republicano, doido e incompetente". Desempregado, foi acolhido pelo Barão de Capanema que o admitiu como administrador de sua fábrica de formicida.

Remédio – Mas a situação financeira de sua família só começou a apresentar alguma melhora quando Barbosa passou a comercializar um medicamento para afecções hepáticas chamado “pariquina”, em homenagem aos índios Pariquis, que obteve grande aceitação popular. Segundo consta, Oswaldo Cruz não só aprovou as propriedades do remédio como passou a receitá-lo, contribuindo consideravelmente para as vendas e as finanças de Barbosa Rodrigues.

Museu Botânico – A fundação do Museu Botânico do Amazonas em 1883, foi mencionada pelo botânico William Rodrigues como um importante marco na biografia de Barbosa Rodrigues. Resultante, entre outros fatores, de sua aproximação com a Princesa Isabel, sua indicação como diretor do museu foi marcada por uma gestão repleta de percalços e falta de apoio político, culminando com o encerramento das atividades do museu após a proclamação da República. O fato de não admitir a indicação de pessoas não habilitadas para exercer a função de etnobotânico e um parecer científico que incriminou uma importante figura do Amazonas, aliados a um temperamento difícil, foram apontados como possíveis agravantes para tal isolamento político e o fechamento do museu botânico sob sua direção.

Revista e outras publicações – Dentre diversas obras científicas de Barbosa Rodrigues, o palestrante destacou Jauapery – a pacificação dos Crichanás, de 1885, de cunho etnográfico, e a publicação da Revista Vellosa, nome que homenageava o naturalista José Mariano da Conceição Velloso, e que trazia descrição de diversas plantas, estudos de paleontologia, arqueologia e descrições de achados fosséis. Além das já citadas, há publicações sobre lendas amazônicas e também sobre os vocabulários indígenas.

Interrelações entre ciências naturais e ciências sociais no século XIX

A segunda palestra da mesa-redonda foi ministrada pelo professor Sérgio Nunes, da Universidade Federal Fluminense – UFF, com o título Uma lição da botânica às ciências sociais: o caso da geografia humana francesa. O professor tomou o caso dos estudos geográficos para falar sobre a busca das ciências sociais, no século XIX, pelo estatuto de cientificidade a partir das ciências naturais e de conceitos como adaptação e evolução.

Fundamentos – Ao abordar a geografia humana francesa, Sérgio Nunes procurou demonstrar como a relação homem-meio era importante para os fundamentos dessa disciplina que surgia e fazia uso da botânica e da ecologia como instrumentos de compreensão. Para tais estudiosos, se havia uma geografia, havia também uma ecologia humana, uma relação biótica e morfológica entre o homem e seu meio.

Naturalização – A apropriação dos termos biológicos pelas disciplinas sociais, era, segundo epistemólogos da geografia, um modo de aumentar o impacto da disciplina em seu contexto político-social, pelo prestígio que as ciências naturais tinham junto aos círculos acadêmicos. As noções da geografia humana a partir de conceitos como adaptação evidenciavam a naturalização da disciplina e a aproximação com as correntes evolucionistas da época.

Geografias – O pesquisador da UFF ressaltou a influência desse diálogo com as ciências naturais no processo de institucionalização da Geografia na França, citando o papel importante de Vidal de La Blanche, da Universidade de Nancy, participante, no período de 1875 a 1890, da formação das cátedras de Geografia no país. Para la Blanche, a Geografia Humana não era o oposto da GeoFísica, mas sim uma ampliação dos estudos geográficos que passaram a considerar a relação adaptativa entre o homem e seu meio. A origem e o nome da disciplina eram, assim, tinham, assim, as mesmas causas que deram lugar às chamadas geografia botânica e zoológica.

Interseções – Sergio Nunes, fez referência também à História da Ecologia e à consideração das plantas como espécies sociais a partir de termos como a geografia das plantas, de Humboldt, a formação fitográfica, de Grinsenbach, a fitossociologia da segunda metade do século XX, a botânica de grupamentos e a sociologia vegetal, que exemplificam o uso de conceitos que perpassavam as disciplinas do mais variados campos e da geografia humana como ciência que incluía a observação geológica e botânica.

Mesa: Ciência e arte na obra de Barbosa Rodrigues

A última mesa do dia 21 foi coordenada pela ilustradora botânica Malena Barreto, da ENBT, e foi composta pelos professores João Pacheco de Oliveira, do Museu Nacional/UFRJ, Lorelai Kury, da COC/Fiocruz e Paulo Ormindo, da ENBT/Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Além dos aspectos artísticos e científicos do trabalho de João Barbosa Rodrigues, destacou-se também, nessa parte do Seminário, o viés antropológico e pacificador do naturalista em relação aos povos nativos da Amazônia.

Um projeto civilizatório para os indígenas

João Pacheco de Oliveira falou sobre Antropologia e indianismo em Barbosa Rodrigues. O pesquisador se deteve sobre o estudo classificatório feito por Barbosa Rodrigues nas comunidades indígenas da Amazônia, e descrito na obra Jauapery, pacificação dos crichanás, de 1885. Nesse livro, Barbosa relatou a viagem de expedição em que passou várias semanas vivendo em comunidades indígenas daquela região, inserido em seus costumes e sua cultura.

Distinções – Para o palestrante, o que houve de inovador no trabalho de Barbosa Rodrigues foi que ele se destacou da visão romântica, idealizada do índio, e escreveu sobre a realidade dos indígenas de seu tempo, do destino deles na nação e suas reações ao tratamento que lhes era dado pela sociedade brasileira. Além disso, Barbosa fez uma descrição dos grupos indígenas que permitia ao leitor entender as condições e limitações de seu trabalho como observador. Para definir os padrões culturais, ele observava o indivíduo, que considerava como um retrato de determinada cultura. Registrava as pinturas faciais, deformações, roupas e adornos, indicando a transformação do corpo biológico em corpo social.

Postura – No entanto, o trabalho de Barbosa Rodrigues não tem, segundo o pesquisador, nenhuma conexão com o relativismo antropológico do século XX. “Na pesquisa de Barbosa, o olhar científico era precedido por uma postura ética e cívica, o objetivo era a pacificação dos índios, que seria parte de um processo civilizatório”, afirmou João Pacheco.

Civilização – Para o naturalista, civilizar os índios era necessário, não existindo a hipótese de deixá-los em sua condição natural. Assim, considerava o aldeamento como primeira providência no tratamento das populações indígenas, com a presença de um professor e de um sacerdote, seguida da inserção de famílias de agricultores para ajudá-los a “progredir”. O aldeamento seria seguido de um isolamento das comunidades vizinhas, que queriam apenas explorar o trabalho indígena.

Pacificação – Barbosa fez estudos também sobre as línguas nativas, além de registrar as expedições por meio de inúmeras fotografias que infelizmente acabaram se perdendo sem serem publicadas. Os povos que estudou foram extremamente colaborativos, levando o naturalista a concluir que o índio era pacífico em sua comunicação com os brancos. Em parte, essa atitude por parte dos indígenas deveu-se a uma postura ética do próprio Barbosa. Seu lema era: morrer se for preciso, matar, nunca. De acordo com João Pacheco, a equipe do naturalista carregava armas para segurança, mas elas eram mantidas sem munições. Entre os momentos de convivência descritos por Barbosa, destaca-se a celebração do banquete da paz, que para ele, deveria ser transformado em feriado nacional, pois era o momento em que o índio passava a oferecer a paz aos brancos e não mais a guerra.

Tempo – João destacou ainda a experiência da partilha do tempo no trabalho de Barbosa, o estudo de como os homens encaram e utilizam o tempo de que dispõem. Nesse sentido, as expedições e a interação com a cultura dos povos indígenas foram um exercício fundamental para a produção das ciências humanas.

A ilustração científica de Barbosa Rodrigues e seus contemporâneos

Livro Sertum Palmarum BrasiliensiunsNa palestra A ilustração científica e o inventário da nação, Lorelai Kury (COC/Fiocruz) comparou as ilustrações feitas por Barbosa Rodrigues em suas publicações com os álbuns ilustrados que acompanhavam os diários de viagens das explorações do século XIX. Esses diários eram como livros ilustrados de história natural que descreviam a vegetação de determinado lugar. Vendiam muito na Europa, principalmente entre a corte.

Estilos – Na passagem do século XIX para o XX, o formato destes livros se diferenciou. As ilustrações passaram a ter outra função, restringindo-se apenas à parte que estava sendo estudada. Barbosa é o único autor deste período que fez publicações ilustradas similares àquelas do período anterior. Lorelai usou como exemplo geral a célebre publicação de Barbosa Rodrigues Sertum Palmarum Brasiliensiuns, que contém três tipos de ilustração: as litogravuras, que assemelham-se a fotos; as ilustrações de palmeiras e dos lugares onde ocorrem; e os detalhes morfológicos. A principal técnica utilizada foi a cromolitografia.

Legitimação – O livro também traz, em seu início, algumas fotos de palmeiras, mas é quase inteiramente composto de ilustrações de palmeiras em contexto e com detalhes morfológicos. Barbosa utilizava a ilustração como uma forma de legitimar seu trabalho, de provar que esteve naquele lugar e viu aquela espécie.

Interações – No Sertum Palmarum, os registros de espécies e paisagens são articulados com uma visão biogeográfica. As imagens mostram a região geográfica e como a palmeira se insere na realidade do local e dos povos que o habitam. Não havia a intenção de registrar apenas a espécie, mas também em que contexto sócio-cultural e geográfico ela estava inserida. Havia uma constante presença de indígenas, mostrando a interação destes com a planta retratada, de modo que o conjunto natureza e seres humanos era organicamente articulado.

Outros ilustradores – Lorelai descreveu também trabalhos anteriores que influenciaram as obras de Barbosa, entre eles o realizado por Carl Von Martius, que também retratava a interação homem-natureza, Francisco Freire Alemão, que procurava fazer um retrato biogeográfico do Brasil e teve inúmeros desenhos sobre o Ceará publicados em artigos científicos, e Alfred Russel Wallace. Ela falou ainda da importância da Comissão Científica do Império, primeira expedição exploradora do Brasil, realizada de 1859 a 1861, onde foram feitas inúmeras ilustrações que não chegaram a ser publicadas. Além de Barbosa Rodrigues, apenas Antônio Correa de Lacerda e João Leocádio de Melo realizaram trabalhos semelhantes no século XX, mas os dois não foram publicados.

Um ilustrador inspirado e meticuloso

Com o título Ilustração botânica na obra de Barbosa Rodrigues: Ciência ou arte?, a palestra de Paulo Ormindo abordou a importância da ilustração botânica nas obras de Barbosa Rodrigues e sua conexão com o trabalho cientifico por ele realizado. “Ilustração botânica é a arte de ilustrar plantas, nasce com o objetivo de ilustrar e documentar. Hoje ela é mais que um complemento do discurso científico, seu papel vai além. Ela tira a planta do isolamento e a destaca, trazendo informações para o público em geral. Mas também pode ser encarada apenas como arte, dependendo do objetivo pretendido”, disse Paulo.

Detalhista – Barbosa Rodrigues tinha formação em desenho, estudou com Francisco Freire Alemão e lecionou artes no colégio Pedro II. Ele viu a possibilidade de usar a arte em benefício de sua obra, para ilustrar seu trabalho e registrar espécies in loco. Estas ilustrações contextualizam a planta e seu ambiente, assim como sua interação com o homem. A presença humana servia também para fazer escala. Nas imagens, Barbosa descrevia a taxonomia das espécies e suas características particulares, assim como detalhes do fruto, da flor com sua parte interna e seus órgãos. Mostrava também o grupo a que a espécie pertencia. Para essas ilustrações detalhadas, utilizava grafite, aquarela e guache. “Ele era habilidosamente meticuloso e extremamente organizado e seguro nas observações morfológicas das plantas”, aponta Paulo. Todas as obras foram assinadas, datadas e algumas contém observações.

Orquídeas – Em seu livro Sertum Palmarum Brasiliensiuns, Barbosa retratou 282 espécies de palmeiras e 174 pranchas foram reproduzidas em litografias. Ele foi o primeiro botânico brasileiro a se interessar pelas espécies nativas de orquídeas. Descreveu em ilustrações 381 espécies e 11 gêneros, estando estas ilustrações entre os mais importantes documentos sobre as orquídeas brasileiras. Apesar da parte escrita de seu estudo sobre orquídeas ter sido publicada em 1877, as ilustrações só o foram em 1996.

Referenciais – Para Paulo, a ilustração botânica ganha importância ainda maior na obra de Barbosa, uma vez que muitos originais escritos das espécies se perderam, sendo substituídos pelos desenhos que passam a valer como referenciais científicos. As ilustrações de Barbosa foram divididas em seis volumes, dos quais cinco estão no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e o sexto encontra-se em uma universidade nos Estados Unidos.

 

DIA 22/10/2009

Manhã

Mesa: Barbosa Rodrigues entre saberes e práticas

As pesquisadoras Viviane Stern, Heloísa Bertol, Magali Romero Sá e Ariane PeixotoAs pesquisadoras Ariane Peixoto (UFFRJ e JBRJ), Magali Romero Sá (COC/Fiocruz) e Heloísa Bertol Rodrigues (MAST/MCT) foram as palestrantes da primeira mesa-redonda desta quinta-feira, 22/10, que teve coordenação de Viviane Stern Fonseca Kruel, também pesquisadora (JBRJ).

Barbosa Rodrigues defensor do saber de comunidades tradicionais

A professora Ariane Peixoto, especialista em botânica sistemática, abriu a mesa-redonda apresentando a palestra “O saber sobre as plantas em sociedades humanas no Brasil: o olhar de Barbosa”. Obra muito citada nos estudos de taxonomia, Mbáe Kaá, de Barbosa Rodrigues, foi utilizada como referência pela pesquisadora para falar sobre o reconhecimento do saber indígena pelo naturalista, que defendia os nativos como profundos conhecedores da flora local. Com esse posicionamento, Barbosa contrariava diversos círculos acadêmicos que desconsideravam o saber botânico das comunidades indígenas.

Posicionamento – A primeira parte da exposição de Ariane foi dedicada a uma breve contextualização política e ideólogica, ressaltando a atuação expressiva de Barbosa Rodrigues na segunda metade do século XIX e suas tendências positivistas e sua defesa de uma urgente reformulação das instituições científicas. Criticava em especial o livre acesso que os estrangeiros, apoiados pela Corte, tinham junto às pesquisas e materiais coletados, muitas vezes desconsiderando as descrições feitas por pesquisadores brasileiros.

Denominações indígenas – A palestrante salientou a importância e riqueza das anotações feitas por Barbosa Rodrigues em suas expedições pela Amazônia nesse cenário de afirmação de uma ciência genuinamente brasileira. Para o naturalista, as denominações dadas pelos índios não eram fruto de uma união arbitrária de características, mas sim de uma lógica apoiada em observações aceitas e legitimadas pelas tribos que seguiam um método sintético de classificação. Ele defendia assim a importância da classificação botânica índigena, cujo entendimento, afirmava, só seria possível por meio do entendimento da língua, pela convivência com os índios e pela presença dos materiais a serem analisados.

Esforço de compreensão – Utilizando seus conhecimentos sobre palmeiras como base e dispendendo esforços na caracterização dos ambientes como importante fator na compreensão da classificação botânica indígena, Barbosa Rodrigues analisava partes de plantas e os lugares onde ocorriam levando em conta as divisões espaciais feitas pelos próprios indígenas. Apresentou, deste modo, cerca de 27 termos utilizados pelos locais e explicou como utilizavam suas ferramentas de classificação para caracteres como forma, cor, gosto e propriedades dos vegetais. Da preocupação com o entendimento do vocabulário indígena resultaram divervas anotações e importantes publicações posteriores.

Sistematização – A pesquisadora ressaltou os esforços de Barbosa Rodrigues, a partir de 1890, quando nomeado presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em sistematizar as descrições e análises dos materiais coletados em suas expedições, que culminaram na publicação de Mbáe Kaá, tida como a obra fundadora da etnotaxonomia nacional.

A polêmica do curare

Na segunda palestra da manhã, a pesquisadora Magali Romero Sá apresentou a temática “Do veneno ao antídoto: os estudos sobre o curare de Barbosa Rodrigues”, ressaltando o lado sempre polêmico do naturalista a partir do estudo de caso sobre o curare (veneno indígena de ação paralisante) e da repercussão de seus experimentos na imprensa da época.

Saber local – Barbosa Rodrigues era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o que lhe possibilitava fazer longas expediçoes pelo Brasil, nas quais coletava e analisava diversas espécies vegetais. Além de herborizar em várias localidades, recolheu uma gama de informações com índios, quilombolas e caboclos, contrariando as práticas científicas da época que minimizavam a relevância das observações nativas.

Experimentos – Desse período datam também as inúmeras experiências com o curare, iniciadas em Óbidos, quando ali morava o cientista. Como ele mesmo relatou em seu trabalho de 1903 sobre a mencionada substância, as experiências com o curare tiveram início em 1873 com amostras vindas de diversas tribos que, depois de aplicarem a substância em flechas, conservavam-na em pequenos potes.

Rival – Salientando o lado polemista de Barbosa Rodrigues, Magali apontou o ano de 1878 como importante marco nas discussões acerca do curare e seus antídotos. Naquele ano, o naturalista convocou uma audiência pública para demonstrar o potencial da substância, sendo surpreendido por João Batista de Lacerda, do Museu Nacional, que antecipadamente publicou artigo sobre uma das plantas curarizantes.

Acerto – Com ampla cobertura da imprensa, Lacerda afirmava que o uso do cloreto de sódio como antídoto não poderia ser comprovado. Além disso, os dois pesquisadores discordavam sobre o conteúdo químico do composto vegetal. Anos mais tarde , após muitos estudos e discussões nas esferas acadêmicas da época, verificou-se que ambos estavam corretos sobre as características do curare.

A percepção da importância dos sambaquis

Heloísa Bertol Domingues enfocou o interesse de Barbosa Rodrigues pelos sambaquisNa terceira palestra da mesa, a pesquisadora Heloísa Bertol Domingues falou sobre “Barbosa Rodrigues e o os sambaquis da Amazônia”, abordando as expedições do naturalista no Norte brasileiro e as contribuições arqueológicas resultantes das pesquisas do naturalista nos sambaquis amazônicos.

Barbosa arqueólogo – Utilizando a obra Antiguidades da Amazônia, de 1879, como referência, a especialista em História das Ciências Naturais, ressaltou a importância dos estudos de Barbosa Rodrigues no campo da Arqueologia em meio às discussões sobre a origem do homem, que, na segunda metade do século XX, alimentavam as questões relativas à formação dos Estados Nacionais e às correntes nacionalistas. Contrariando diversos pesquisadores da época, Barbosa afirmava que os indígenas eram imigrados e não originários do solo brasileiro. Apontava assim para um outro rumo de discussões acerca de um Brasil pré-colonial a ser redescoberto e revalorizado através de estudos que, em vez de desconsiderar o saber local – como era prática ente os cientistas da época – atribuía relevância ao diálogo com os nativos nos procedimentos de pesquisa.

Conchas – Sobre os sambaquis, que tinham a função de aterros sepulcrais, as pesquisas de Barbosa Rodrigues chamavam atenção para as modificações ocorridas após a chegada cristã no continente, a qual alterou significativamente essas referências culturais. Afirmando ter havido naquelas localidades uma cultura local superior, o naturalista demonstrava especial interesse por montes artficiais de conchas que eram encontrados por suas expedições e que demarcavam, pela diversidade dos materiais encontrados na escavações desses montes, a consistência cultural daqueles povos antes do contato com os colonizadores.

Análise dos artefatos – Segundo Heloisa Bertol, esse achados se constituíam de louças de uso doméstico, urnas mortuárias, ídolos de pedra, espinhas de peixes e outros artefatos que evidenciavam a presença do homem em tais locais e alguns de seus costumes, como a alimentação, por exemplo. No detalhamento da descrição de Barbosa sobre os objetos, ficava clara a sua posição em demonstrar como esses artefatos e costumes se modificavam nos diferentes agrupamentos indígenas, defendendo, portanto, uma visão menos homogeneizante e reducionista das culturas locais.

Achados geológicos – Em seus estudos pioneiros sobre os sambaquis, Barbosa Rodrigues registrou a ocorrência não só de montes artificias de conchas, sendo o primeiro a apresentar e detalhar a ocorrência de montes naturais de conchas no interior. Contribui, assim, com os debates geológicos sobre o deslocamento do mar, fenômeno que os indígenas atribuíam ao “resto da vazante”.

Proteção do patrimônio – Barbosa criticava de forma enfática a presença de fábricas de cal que utilizavam tais conchas como matéria-prima e degeneravam assim o legado nativo, bem como a possibilidade do aprimoramento dos estudos arqueológicos dos usos e costumes locais. Sua luta pela proteção dos sambaquis inspirou pesquisadores como Luís de Castro Faria, do Museu Nacional, cuja atenção dada à defesa deste patrimônio resultou na Lei n° 3.924, de 26 de julho de 1961, que amplia a proteção legal de objetos e sítios arqueológicos no Brasil.


Tarde

Mesa: O Museu Botânico de Barbosa Rodrigues

William Gama, Luisa Rocha e Cícero de AlmeidaAs iniciativas museológicas de Barbosa Rodrigues, da criação do Museu Botânico do Amazonas à reestruturação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, foram abordadas na segunda mesa-redonda desta quinta-feira, 22/10, pelos pesquisadores William Gama, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e Luisa Rocha, do Museu do Meio Ambiente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Além deles, o professor Cícero de Almeida (IBRAM, IPHAN e UniRio) falou sobre a história dos museus científicos e de história natural no Brasil.

Vestígios de um projeto frustrado

Na palestra Vestígios do Museu Botânico do Amazonas de João Barbosa Rodrigues, o pesquisador do INPA e doutor em Política Científica e Tecnológica, William Gama, falou do que ainda existe e do que se perdeu do Museu Botânico do Amazonas, do qual Barbosa Rodrigues foi diretor desde sua abertura em 1883 até seu fechamento em 1890. O Museu teve vida curta, pois o prédio que o sediava foi desviado pelo governo para abrigar doentes da varíola. Para o acervo bibliográfico e etnográfico, Barbosa Rodrigues havia reunido inúmeras publicações e objetos, mas grande parte disso foi perdida após o fechamento da instituição. Em 1946, quando o INPA foi criado, uma de suas primeiras funções foi resgatar esse material.

Resgate – Hoje o acervo do INPA conta com um total de 831 dessas publicações, sendo duas do século XVI, 104 do século XVIII e 554 do século XIX. As obras estão em francês, alemão e latim, algumas estão autografadas e a maioria encontra-se atualmente em mau estado. Entre os autores, destacam-se: Frei José Mariano da Conceição, James William, Helenus Trail, Lindley, Hassller, De Candolle, Andonsonia e Humboldt.

Perdas – Já o acervo etnográfico do Museu Botânico do Amazonas não pôde ser recuperado. Ele dispunha de um total de 1138 peças de artefatos indígenas, 780 delas doadas pelo próprio Barbosa Rodrigues, que as havia coletado em 41 tribos que visitou. Entre estas peças, William destacou uma máscara usada nas festas de Yurupary, que era tecida dos pelos de macacos e onças, e de cabelos humanos, e não podia ser vista por mulheres.

O museu e o projeto republicano brasileiro

Cícero de Ameida, do Instituto Brasileiro de Museus - IBRAM, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN e UniRio falou um pouco a respeito da história dos museus no Brasil e do trabalho de cadastro que o IBRAM está realizado com os que existem atualmente. Ele chamou atenção para o fato de o Brasil ter poucos museus dedicados à ciência dentre os 1800 cadastrados. Levando em conta que, quando os museus começaram a surgir por aqui, todos eram dedicados à história natural, o palestrante credita este decréscimo a uma desvalorização do ensino e do conhecimento.

O primeiro – No século XVIII, já se falava da quase inexistência e da pouca importância dada aos museus de ciência, mas sabe-se que o Museu Real, no Rio de Janeiro, teve uma parte dedicada à história natural. E também que o vice-rei D. Luís de Vasconcelos enviou cartas relatando o funcionamento do Museu de História Natural, apesar deste não ter tido um projeto que atraísse o grande público.

Status – Ao longo do século XIX, houve uma série de iniciativas museológicas, e os museus eram então as grandes instituições científicas, papel desempenhado atualmente pelas universidades. O museu era um instrumento de demonstração civilizatória, era importante na busca do caráter civilizatório da nação que se queria criar.

Mudança – No início da República, houve o projeto republicano dos museus, que orientou uma tipologia que iria predominar no século XX, pela qual os museus científicos foram prejudicados. Esse projeto transformou os museus em espaços de consolidação de uma afirmação do espaço republicano, deslocando-os para o conceito simbólico da nação que se criava. As virtudes das coleções eram a materialidade da nação, um novo capital simbólico de afirmação do novo regime. Para exemplificar o ocorrido, Cícero deu o exemplo do Museu do Ceará, onde há uma enorme coleção de animais empalhados que nunca chegou a ser exposta, pois o espaço estava sendo utilizado para atividades políticas.

Esforço atual – Esse decréscimo do número de museus relacionados à ciência não está, para o palestrante, atrelado somente à questão republicana no Brasil, mas também a um decréscimo do estímulo do aprendizado da ciência. “Hoje, somos um dos países com o menor índice de museus científicos. No trabalho de cadastramento, notou-se uma dificuldade dos museus em se definir, definir seus objetivos, o que faz do cadastro e regularização dos mesmos uma tarefa de enorme importância”, concluiu o palestrante.

Demarcando fronteiras: A musealização da botânica

A pesquisadora Luisa Rocha, do Museu do Meio Ambiente – MuMA/Jardim Botânico do Rio de Janeiro tratou, em sua palestra, da administração de Barbosa Rodrigues no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e como ele atrelou os conceitos de jardim botânico e museu botânico. No decreto proposto por Barbosa logo que assumiu a presidência do Jardim, ele realinhava os objetivos e a missão da instituição com a ciência botânica, delimitando as fronteiras e aplicações desta especialidade. Ele propôs a reestruturação da instituição sobre bases científicas, com a missão de estudo da botânica, em particular da flora brasileira.

Novos profissionais – O cunho científico da coleção e da instituição seria assegurado pelo estudo e classificação dos vegetais por métodos científicos e pela elaboração do catálogo geral com a finalidade de realizar intercâmbios com instituições congêneres no exterior. O foco da coleção viva seria o cultivo de plantas úteis com emprego na ciência, na agricultura, nas artes e na indústria. Para isso, Barbosa Rodrigues relacionou os profissionais necessários para o funcionamento do Jardim, e criou uma rede de colaboração entre os estados brasileiros. Criou também o cargo de naturalista-viajante, com a função de coletar espécies pelo Brasil e remetê-las à instituição. Seus esforços também se direcionaram para a “vulgarização” da botânica com o intuito de despertar o interesse e promover o estudo de amadores, visitantes e estudantes.

Museu – Quanto ao museu botânico, Barbosa delimitou para ele a função de abrigar um herbário composto pelas plantas cultivadas no Jardim, assim como um outro da flora em geral, composto por folhas, flores, e frutos secos em álcool, além de amostras de madeiras de lei, com todos os exemplares devidamente identificados e classificados. Em 1890, Barbosa não chegou a delimitar na sua estrutura as fronteiras entre o Jardim e o museu botânico, apenas designou o segundo como lugar das coleções científicas.

Acessos diferenciados – Em 1904, Barbosa realizou uma reforma estrutural na instituição. O herbário, a biblioteca e o observatório foram deslocados do museu para o Jardim, que, em seu projeto, deveria incluir também uma escola botânica, o campo de experiências e viveiros, os refrigeratórios (estufas), os jardins, o laboratório e o Arboreto. O museu passou a ser composto por duas divisões: A botânica, destinada a públicos particulares e escolas, composta por coleções de vulgarização, área de introdução ao estudo da botânica, sistemática elemental, flores, frutos e produtos vegetais; e a divisão florestal, onde as amostras de madeira estariam organizadas de forma a evidenciar os caracteres de cada uma, sob os pontos de vista técnico e botânico. A fronteira entre pesquisa e exposição, coleção de referência e de vulgarização, é delimitada pelo acesso público e privado. Assim, biblioteca, herbários, viveiros e refrigeratórios eram de uso privativo do Jardim.

De olho no futuro – Assim, o regulamento de 1890 situava as coleções e a pesquisa na estrutura do recém criado Museu Botânico, seguindo o modelo dos museus de história natural, só que agora com foco numa área especializada das ciências naturais, acompanhando as mudanças nas concepções científicas da época. No regulamento de 1904, as seções foram reorganizadas de forma a contemplar as múltiplas atribuições do Jardim, almejando transformá-lo em um centro de pesquisa, com uma relevante produção científica baseada nas suas coleções classificadas.

 

DIA 23/10/2009

Manhã

Mesa: Naturalistas, expedições e congressos

A primeira mesa-redonda do dia 23 reuniu as historiadoras Dominichi Sá, da COC/Fiocruz, Ana Ribeiro, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast/MCT) e Alda Heizer, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A palestra de Dominichi teve por objeto os naturalistas da Comissão Rondon. Embora Barbosa Rodrigues não tenha feito parte da Comissão, a coleta de exemplares da flora e da fauna da Amazônia e o contato estabelecido com os indígenas deu, em certa medida, continuidade ao seu trabalho de conhecimento daquela região. Ana e Alda trataram, respectivamente, da participação de Barbosa no Congresso Científico Internacional de 1905 e na Exposição de 1908. A mesa foi coordenada pela pesquisadora Elsie Guimarães, do JBRJ.

Os Naturalistas da Comissão Rondon

Dominichi SáA Comissão Rondon (1907-1915) teve grande importância para a exploração do Brasil e de suas riquezas naturais. A pesquisa que deu origem à palestra de Dominichi Sá foi empreendida por um grupo de pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz, por meio da leitura de relatórios de cientistas e naturalistas sobre suas viagens de exploração na Comissão, apresentando, em linhas gerais, seus personagens e atividades. A COC chegou a publicar um artigo com a análise de parte da documentação científica das expedições, que hoje encontra-se de posse do Forte de Copacabana e do Museu Nacional.

Denominação – Comissão Rondon, como ficaram conhecidas as expedições das quais o Marechal Rondon participou de 1907 a 1915, é um nome fantasia. O nome verdadeiro é Comissão Construtora de Linhas Telegráficas, e os objetivos eram a expansão da telegrafia, delimitação e inspeção de fronteiras, conhecimento para ocupação e povoamento do território. Entre os objetivos, destacam-se as atividades relacionadas à exploração da região Norte do Brasil, que tinha baixa densidade demográfica e só era acessível por vias fluviais.

Comunicação – O telégrafo era utilizado para ajudar na posse das regiões, na administração das populações, na ocupação e povoamento dos espaços vazios do território nacional, e, sobretudo, no reconhecimento, demarcação, estabelecimento definitivo e defesa das fronteiras. Era necessário para que os militares pudessem empreender serviços de segurança, num exemplo claro da visão do Brasil como um espaço a ser conquistado e ocupado. A Comissão ligou a rede telegráfica de Cuiabá a Santo Antônio do Madeira, na Amazônia. O objetivo era ligar a Amazônia e o Acre, do Alto Purus ao Alto Juruá, por intermédio da capital do Mato Grosso.

Competências reunidas – A Comissão era composta basicamente por militares, entre oficiais inspetores e seus auxiliares, no total de dois médicos, dois farmacêuticos, um fotógrafo e algumas dezenas de praças para a execução dos trabalhos pesados. As diversas expedições de exploração que compuseram a Comissão ficaram conhecidas por sua política indianista e por seu valor historiográfico. Mas o modo como se deu a presença dos naturalistas também foi inovador. Diferentemente do que acontecia nas expedições anteriores, na Comissão Rondon eles viajaram junto com os militares exploradores. Com isso, o recém-instaurado governo republicano, tinha a intenção de identificar terras para a lavoura e pecuária, além de mapear os mananciais de água potável, fatores potencializadores do povoamento da região.

Descobridores – Esses naturalistas coletavam materiais da flora regional, e diversas novas espécies de animais e vegetais foram encontradas. Havia estudiosos das áreas de botânica, cartografia, geologia, zoologia e antropologia, a grande maioria do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Entre eles, destacam-se os zoólogos Alípio de Miranda Ribeiro e Arnaldo Blake Santana, os geólogos Cícero de Campos e Euzébio de Oliveira, o antropólogo Edgard Roquete-Pinto e os botânicos Frederico Carlos Hoehne e João Geraldo Kuhlmann. Essas viagens exploratórias tiveram enorme importância para o enriquecimento das coleções das instituições, principalmente do Museu Nacional, que se tornou “fiel depositário do material coletado”.

Algumas consequências – A Comissão Rondon representou um campo de trabalho inédito para os naturalistas brasileiros incorporados às suas diferentes viagens de exploração. Depois dela, os naturalistas brasileiros passaram a ser reconhecidos nacional e internacionalmente como verdadeiros cientistas e exploradores de seu próprio país. Ela teve enorme importância no povoamento do norte do Brasil e na delimitação de suas fronteiras, assim como no cartografamento desta região.

Congressos Internacionais e a atuação de Barbosa Rodrigues em 1905

Ana RibeiroAna Ribeiro, do Mast, abordou o congresso científico de 1905, primeiro congresso internacional no Rio de Janeiro, no qual Barbosa Rodrigues integrou as comissões diretora e executiva. Congressos científicos tiveram origem na Alemanha, e contavam com uma profusão de participantes, temas e interesses distintos. Eram eventos sociais agradáveis, com coquetéis e a presença de autoridades. A intenção era de se fazer uma projeção do potencial do país anfitrião e da instituição organizadora, além de um “comércio intelectual”, troca de informações entre estudiosos.

Sucesso – O Congresso de 1905, no Rio, teve um almoço na Floresta da Tijuca, banquete no Teatro São Pedro de Alcântara, programa musical com grandes clássicos brasileiros e visitas à Ilhas das Enxadas , ao Hospital dos Lázaros e ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, entre outros locais. Foi amplamente divulgado nos jornais cariocas e na revista Cosmos. Houve 630 pessoas inscritas e 43 representantes de 13 países, organizados em 10 seções científicas. O nível de discussão nos campos da matemática e das ciências físicas e naturais foi considerado ótimo pela historiadora.

Resultados – O congresso serviu, assim, como um eficiente instrumento de propaganda, exibindo o Brasil para outras nações. Os anais estão divididos em quatro volumes, e demoraram 11 anos para serem todos publicados. Nestes, encontram-se resumos das reuniões, pareceres, comentários sobre os presentes, homenagens e fotografias. Houve um total de 17 trabalhos apresentados e 112 publicados.

Dedicação – Barbosa Rodrigues foi, para Ana Ribeiro, o membro mais ativo, inovador e presente nas reuniões. Publicou dois trabalhos, embora não tenha chegado a apresentá-los. Participou da seção de ciências físicas e naturais e da comissão diretora e executiva. Sua presença foi tão marcante que sua esposa e auxiliar, Constança Barbosa Rodrigues, foi escolhida como presidente de honra do congresso, algo inédito para uma mulher. A visita ao Jardim não foi considerada uma visita científica, mas houve apresentações de alunos de uma escola na chamada “festa das flores”.

Seca – A palestrante destacou a importância do trabalho principal de Barbosa no seminário, intitulado “Diminuição das águas no Brasil”. São mais de 160 páginas, com gráficos e quadros. A motivação para esse trabalho do cientista foi a seca, não atribuída por ele apenas à falta de chuva, que remedia apenas temporariamente o mal, mas ao desaparecimento de muitos mananciais e à diminuição de outros. A finalidade era chamar a atenção do governo e dos estudiosos para a necessidade de aprofundar essa questão tanto do ponto de vista teórico, quanto prático, para evitar calamidades futuras. A sugestão de Barbosa era que se mantivesse uma faixa de 300 ou 400 metros de floresta em torno dos mananciais para protegê-los.

O naturalista e a exposição

Magali Romero e Alda HeizerA historiadora Alda Heizer (JBRJ) falou sobre a Exposição Nacional de 1908 e a participação que Barbosa Rodrigues teve no evento como presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Na exposição, Barbosa apresentou a história institucional do Jardim, descrita no livro comemorativo do primeiro centenário da instituição.

Celebrações – Exposições nacionais já eram comuns em diversos países e aconteciam sempre em datas comemorativas. O Brasil só começou a participar desse tipo de evento em fins do século XIX e início do XX, marcando presença tanto na exposição da Filadélfia, que comemorou os 100 anos de independência dos EUA, quanto da exposição de Paris em 1889, que comemorou o aniversário da revolução francesa e a inauguração da Torre Eiffel. A Exposição de 1908, no Rio de Janeiro, comemorou o centenário da abertura dos portos às nações amigas.

Organização – Alda explicou que essas exposições eram divididas por país, e cada subdivisão continha pavilhões temáticos que representavam cidades, estados e instituições. A exposição de 1908 tinha a intenção de inventariar o Brasil, e recebeu milhares de visitantes. Cada instituição participante escolhia apresentar o que achasse relevante dentro do material de que dispunha, e uma delas foi o Jardim Botânico, que expôs equipamentos e amostras vegetais, além de mostrar um pouco de sua história institucional. O próprio Barbosa Rodrigues foi um dos comissários da exposição.

Material – Para facilitar a visita foram produzidos livros especiais, mapas, anúncios e diagramas, e relatórios foram preparados como memória da exposição. Conhecido por ser meticuloso, Barbosa Rodrigues chegou a fazer uma autocrítica em relação à sua apresentação do Jardim Botânico no evento, que considerou precária, embora ela tenha sido feita com os recursos que o Jardim dispunha na época.

 

Família de Barbosa Rodrigues doa publicações do naturalista ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Sonia Rodrigues e Fernando Rodrigues

Fernando Barbosa Monteiro Autran e Sônia Barbosa Monteiro Autran, bisnetos de João Barbosa Rodrigues, doaram 11 livros raros do naturalista à Biblioteca do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que leva o nome desse que foi um de seus mais ilustres presidentes. A cerimônia de assinatura do termo de doação aconteceu na abertura do terceiro dia do Seminário dedicado a Barbosa Rodrigues, na sexta-feira, 23 de outubro.

A ideia de fazer a doação foi da trineta de Barbosa, Paula Autran. Os livros ficaram guardados por 50 anos numa estante na casa de uma tia de Paula. O diretor da Escola Nacional de Botânica Tropical, Gilberto Amado, representou o Jardim Botânico do Rio de Janeiro na cerimônia.

Assinatura do termo de doação


Tarde

Mesa: O Jardim de Barbosa

Barbosa Rodrigues introduziu e cultivou, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, diversas espécies de plantas coletadas, descritas e catalogadas por ele. A contribuição do naturalista para essas coleções foi abordada na palestra do botânico Claudio Nicoletti, na tarde de sexta-feira, 23 de outubro.

Mas o ponto de vista da ciência botânica, que predominou na criação de jardins a partir do século XIX, é bem diferente daquele que guiou os projetos dos jardins renascentistas, como ficou claro na palestra da historiadora Silvia Patuzzi, que abriu a mesa. E para encerrar o Seminário João Barbosa Rodrigues: um naturalista brasileiro, o geólogo e paleontólogo Antonio Carlos Fernandes, do Museu Nacional, apresentou o resultado de uma instigante investigação histórica sobre Barbosa Rodrigues a partir do nome de um peixe...

A retórica da paisagem

O que são os jardins? A resposta a essa questão vai variar com o tempo e as funções associadas a esses espaços. São essas funções, ou usos, que vão determinar o modo como um jardim foi criado e pode ser melhor compreendido. E a historiadora Silvia Patuzzi, da PUC-Rio mostrou, em sua palestra – A paisagem persuasiva: entre o jardim renascentista e o colecionismo botânico do século XIX – por que os jardins do período renascentista são fundamentalmente diferentes daqueles criados a partir do século XIX.

Espaço como discurso – Silvia cunhou o conceito de paisagem persuasiva para explicar as intenções e critérios que guiaram a criação dos jardins do Renascimento. Ela percebeu que a chave para compreender a organização desses espaços era a retórica. Um jardim era, então, um percurso ou conjunto de percursos baseados em estruturas linguísticas, verbais. Havia algo sendo dito através da organização daquele espaço.

Educação – A professora apontou que já com Estrabão (63 ou 64 a.C-24 d.C.), na Antiguidade clássica, encontrava-se a idéia de passar informações importantes por meio dos lugares geográficos, e não sobre eles necessariamente. A cultura católica clássica, por sua vez, manteve a idéia de uma função educativa do espaço. “A descrição e a representação do espaço eram um repertório para a retórica e o aperfeiçoamento moral”, afirmou Silvia. A tópica era voltada à memorização e à ação.

Fruição – Assim, fruir dos jardins renascentistas era educativo de uma maneira diferente em relação aos jardins de hoje. Pois eles eram feitos com o objetivo de proporcionar a meditação em seu sentido cognitivo – “o de recuperar mentalmente, por intermédio dos componentes espaciais organizados, as informações que já possuo, produzindo novos conhecimentos”, explicou a palestrante.

Leitura – A própria arte dos jardineiros era, segundo Silvia, considerada retórica: relacionava-se com a expressão de significados, usando a beleza da composição para ajudar a memorizar os conhecimentos. A educação, no passeio por um desses jardins, não se dava pela mera observação da natureza, mas pela fruição dessas “narrativas espaciais” – o jardim renascentista devia ser lido.

Exemplos – A historiadora serviu-se de algumas imagens para ilustrar essa retórica do espaço. O retrato dos Duques de Urbino, pintado por Piero della Francesca (1416-1492), foi encomendado com a recomendação de que a paisagem deveria expressar “o bom governo do príncipe”, isto é, do próprio duque. Em outra imagem – o projeto de uma vila com residências e jardim integrados – os percursos exemplificavam as funções da família.

Projetos – Ainda numa terceira prancha, de fins do século XVII, Silvia mostrou um projeto não realizado – um percurso criado em um bosque, do qual só conseguiria sair quem fizesse as escolhas corretas no caminho – tratava-se de um itinerário pedagógico para o delfim da França. E mesmo na Revolução Francesa surgiu a ideia de usar o Jardim de Luxemburgo como uma espécie de “mapa virtual” sobre o sentido da nova nação republicana.

Taxonomia – Para Silvia, enquanto a chave para a compreensão do jardim renascentista é a retórica, a chave para a compreensão do jardim do século XIX é a taxonomia – já não há preocupação em criar alegorias e narrativas, e sim em classificar cientificamente. Isso se aplica ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, principalmente a partir de Barbosa Rodrigues.

As novas espécies descritas e cultivadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro por Barbosa Rodrigues

O botânico Claudio Nicoletti foi curador das Coleções Vivas do Jardim Botânico do Rio entre 2002 e 2007. Nesse período, passou a ter interesse em identificar a origem das plantas cultivadas no Jardim e a pesquisar sobre o tema nos livros publicados por Barbosa Rodrigues. “Ele estudou muitas famílias de plantas – era um generalista, o que é raro hoje”, lembrou Nicoletti.

Publicações – Na obra Plantas Novas e Cultivadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (1891), por exemplo, Barbosa descreveu 33 espécies de 12 famílias. Já na publicação Hortus Fluminensis (1894), ele relatou a situação das coleções quando assumiu a presidência da instituição, que em 1890 abrigava de 450 a 500 espécies. O próprio Barbosa Rodrigues foi responsável pela introdução de cerca de 3 mil espécies no Jardim Botânico do Rio.

Registro – Essa introdução de mudas foi feita de forma intencional, não aleatória, em que “o registro às vezes se sobrepõe à paisagem”, contou o palestrante. Barbosa tentou, de fato, criar paisagens por ecossistemas, como a “região amazônica”, o “cerrado” e a “restinga”.

Identificações – O cultivo era acompanhado por um sistema de identificação por meio de placas numeradas que correspondiam a fichas em um arquivo. Mas, há alguns anos, quando essas placas foram substituídas por novas, tal correspondência se perdeu, o que dificulta o trabalho de resgate histórico das coleções. Para tentar recuperar algumas identificações da época de Barbosa, Nicoletti fez um cruzamento das informações das fichas com as informações do Hortus Fluminensis.

Homenagens – O pesquisador deu exemplos de algumas espécies relatadas no livro que não conseguiu encontrar atualmente no Jardim, como a Arikuryroba capanemae e a Isabelia virginalis, cujas denominações homenageavam, respectivamente, o Barão de Capanema, grande amigo de Barbosa, e a princesa Isabel.

Semelhança – Mas foram os exemplos de espécies encontradas – no livro e no Jardim de hoje – que causaram a admiração do público que assistiu à palestra. A comparação entre a ilustração que Barbosa fez da Chuquiragua alpestris e a foto tirada 115 anos depois da mesma espécie no Jardim mostrou a precisão do desenho do naturalista – cuja fidelidade às características de seu objeto de estudo tornou a identificação da planta atual inquestionável.

Incógnita – Se Barbosa Rodrigues descreveu tantas plantas, é de se supor que elas tenham typus (amostra padrão de uma espécie). Mas onde foram parar os materiais de herbário do naturalista? “Em grande parte, ninguém sabe”, revelou o palestrante. Em alguns casos, no que se refere a material coletado antes de 1890, Barbosa remeteu typus para o Jardim Botânico de Coimbra.

O botânico brasileiro e o zoólogo italiano

O geólogo e paleontólogo Antonio Carlos Fernandes, do Museu NacionalO professor Antônio Carlos Sequeira Fernandes não é botânico, e sim geólogo e paleontólogo do Museu Nacional da UFRJ, mas lhe coube a palestra de encerramento do Seminário sobre Barbosa Rodrigues. “Vocês devem estar se perguntando o porquê”, reconheceu com bom humor no início de sua fala. Acontece que, a partir de algumas pistas, ele e sua equipe desvendaram uma história que lançou luz sobre a interlocução científica de Barbosa no exterior.

Achado – Fernandes tem trabalhado na identificação das primeiras coleções do Museu Nacional, tentando comparar documentos e coleções. Isso levou ao levantamento das coleções italianas que chegaram ao Museu. Em meio a esse trabalho, foram encontrados documentos do zoólogo Enrico Giglioli, Diretor do Museu Zoológico de Vertebrados, em Florença, que havia remetido material zoológico em troca de material arqueológico/etnográfico, especialmente cabeças-troféu Munduruku. Ao analisar a biografia de Giglioli, encontraram menção de uma homenagem a ele feita por Barbosa Rodrigues.

Peixe – Em uma edição do Jornal do Commercio de 1886, Barbosa publicou um artigo em que descrevia uma espécie de peixe que acreditava ser nova, e sugeria para ela o nome de Lepidosiren giglioliana em homenagem a seu “amigo” Enrico Giglioli. De fato, naquele mesmo ano, chegou ao Museu Zoológico de Florença um vidro com um peixe preservado em álcool, endereçado a Giglioli para identificação.

Amizade – A questão que se colocou para os pesquisadores do Museu Nacional foi a de por que Barbosa chamava Giglioli de amigo e desejava homenageá-lo com o nome da possível nova espécie. A resposta começou a aparecer ao investigarem a vida do cientista italiano.

Viagem – Giglioli era zoólogo, mas seu pai era antropólogo, o que levou o jovem Enrico a ter muita afinidade com a disciplina. De 1865 a 1868, ele fez uma viagem ao redor do mundo, descrita em seu diário. Esteve no Rio de Janeiro em 1866, visitando o Museu Nacional, que então se situava no Campo de Sant'Ana, onde viu as cabeças-troféu Munduruku que tentaria obter depois. Também visitou o palácio imperial e conheceu D. Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina, que era de Nápoles e tinha grande interesse pela Antropologia.

Contato – O cientista italiano já tinha, portanto, bastante afinidade com o Brasil quando se tornou vice-presidente da Sociedade Italiana de Antropologia e de Etnologia, em 1869. Sabendo disso, em 1876, o Barão Felipe Lopes Netto, diplomata brasileiro na Itália, remeteu a Giglioli os trabalhos antropológicos de Barbosa Rodrigues na Amazônia. No mesmo ano, o zoólogo propôs o nome de Barbosa como membro honorário da Sociedade, o que foi prontamente aceito. No ano seguinte, foi a vez de D. Pedro II e de Lopes Netto.

Conclusão – Em 1877, Giglioli publicou uma resenha de todos os trabalhos de Barbosa Rodrigues até então. Sabe-se que houve uma importante troca de correspondência entre os dois cientistas, mas esses documentos não foram encontrados. O peixe está no Museu Zoológico de Florença até hoje. Em 1887, Giglioli publicou na revista Nature um artigo sobre o Lepidosiren giglioliana, concluindo que não se tratava de uma espécie nova, já batizada como Lepidosiren paradoxa. Coincidentemente, os dois amigos e cientistas morreram no mesmo ano – 1909.

 

 

 

 

 

 

volta à primeira página