JBRJ alerta os visitantes para os riscos de alimentar macacos-prego
18/10/2013

Texto de Gabriela Heliodoro
Fotos: Equipe do Projeto Fauna

Macacos-prego estão entre os animais mais inteligentes das Américas. São capazes de encontrar soluções para problemas complexos, usar ferramentas e as mãos com grande habilidade, criar estratégias, compreender e utilizar os conceitos de causa e consequência. Tamanha capacidade cognitiva, aliada a uma curiosidade perspicaz, os torna exploradores eficazes, o que é de grande utilidade na natureza, mas pode representar uma série de riscos quando eles passam a conviver com humanos e as cidades.

Em lavouras, macacos podem atuar como uma “praga” e devastar plantações. Entram em residências em busca de alimentos, sujam, bagunçam, reviram lixeiras e, até mesmo, “assaltam” pessoas que carregam algum petisco interessante. Mas, antes de qualquer coisa, precisamos lembrar que estamos ocupando com imóveis e plantações áreas que antes pertenciam aos animais e plantas. Áreas que eram divididas em estratos arbóreos, onde macacos de várias espécies conviviam com centenas de outras de fauna e flora.

Na área do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e adjacências, esses animais não estão passando fome. A mata, assim como ainda está, é pródiga em alimentos para o reduzido número de macacos que a habita. Insetos e outros invertebrados, pássaros e outros animais, além de ovos, frutos, brotos, anuros e larvas compõem sua alimentação. A natureza continua sendo o espaço para caçarem, coletarem e forragearem, como bons macacos que são…

 

 

Também é importante ressaltar o porquê de nossas lixeiras e lanchinhos provocarem tamanha atração nos macacos e outros animais. A resposta é simples: açúcar, gordura e sal. As mesmas substâncias que tornam os alimentos saborosos para os humanos, são irresistíveis para os macacos em geral. Porém, da mesma forma que esses alimentos ricamente gordurosos e calóricos são ruins para o bem-estar humano, são ainda mais impactantes à saúde dos animais. Casos de pressão alta, diabetes, cáries, problemas renais e hepáticos e muitos outros já foram detectados, decorrentes do excessivo consumo de açúcar. O resultado é a ocorrência de dezenas de problemas, como a hiperatividade, baixa imunidade, que favorece infecções causadas por fungos, vírus e bactérias, câncer e uma espécie de vício por açúcar que faz com que o consumo aumente exponencialmente.

 

Em um frenesi açucarado, os animais se tornam mais agressivos com quaisquer elementos que os separem de seu doce objetivo, alterando comportamentos que estabeleciam limites de convivência e que podem culminar no ataque a pessoas. O sal e gordura excessivos também são cruéis com o organismo dos animais, potencializando todos os aspectos negativos desta alimentação. Isso sem falar em corantes, acidulantes, conservantes e tantas outras substâncias contidas em alimentos industrializadamente doces ou salgados demais.

Mesmo frutas e alimentos naturais são terrivelmente prejudiciais para a saúde de animais selvagens, aumentando o risco de doenças que podem ser transmitidas de nós para eles, como a herpes vírus, influenza, hepatites e doenças virais e bacterianas em geral. Cada espécie conta com um arsenal imunológico próprio, muitas vezes enfraquecido para doenças que não lhe são familiares. As doenças, por sua vez, contam com agentes com grande capacidade adaptativa, que podem sofrer mutações variadas e, uma vez alteradas, retornam a contaminar o homem, agora com uma variante inovadora, que, sim, pode vir a ser letal. Soma-se ao problema o fato de que frutas provenientes da agricultura humana possuem defensivos agrícolas.

Além disso, existe a questão do condicionamento e do aprendizado. Animais que recebem alimento, “saudável” ou não, aprendem esse mecanismo e o integram em sua rotina. Os comportamentos naturais são alterados por essa fonte alimentar, estimulando o animal a buscar mais e mais comida de forma facilitada. Animais alimentados dessa forma procuram a convivência com o homem. Visando obter insumos similares, passam a assaltar residências e lixeiras, diminuem o limiar de distância tolerado em relação ao ser humano e, ao se aproximarem dessa forma, abrem ainda mais as portas para todos os problemas citados anteriormente.

Ao explorarem as lixeiras, os animais acessam as embalagens descartadas e querem seu conteúdo, levando-as para locais altos, considerados seguros para destruí-las. Algumas embalagens são especialmente perigosas, como latas e vidros. Ao mordê-las, ingerem resíduos e pedaços de metal e vidro, que causam cortes nas mãos e na face, entre muitos outros acidentes.

Uma vez que macacos aprendem a assaltar pessoas e lixeiras e assimilam que o barulho de uma sacola plástica representa um lanche, avistar um possível alvo torna-se uma ocasião para tentar tomá-lo. Muitas vezes, o conteúdo que conquistam não é o que almejavam. Podem roubar e consumir remédios, cigarros, bebidas alcoólicas, entre outras coisas inesperadas, desconhecendo a restrição àqueles itens, que são prontamente consumidos. Intoxicação, envenenamento e mesmo a morte do animal são algumas das consequências.

Forragear, ou seja, movimentar-se de forma exploratória pelo ambiente, coletando alimento, é uma das principais atividades dos macacos-prego, que alimentados ou com a alimentação facilitada, têm diversos comportamentos alterados e veem suas relações hierárquicas sabotadas. A facilidade e abundância de insumos aumenta a reprodução e a quebra de regras comportamentais e hierárquicas, que desestrutura os grupos, aumentando episódios de agressão inter e intragrupais e prejudicando a organização social.

Alimentar os animais é ruim de todas as formas. Ao caminhar no Arboreto, não consuma alimentos nem descarte embalagens nas lixeiras para não estimular a coleta ou furto. Coopere e informe àqueles que o fazem sobre os riscos e consequências dessa atitude. Muitas pessoas acreditam que estão fazendo um bem aos animais, inconscientes que de alguma forma estão contribuindo para sua extinção e sofrimento.


 

 

 

 

 

 

 

voltar à primeira página