Novos tempos para a pesquisa no Jardim Botânico do Rio de Janeiro
23/8/2013

dsCriação de novos laboratórios, informatização dos acervos, abertura de linhas de pesquisa com perfil multidisciplinar e trabalho em rede marcam uma nova fase da Diretoria de Pesquisa do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

O diretor de Pesquisas Científicas do JBRJ, Rogério Gribel, fala sobre alguns projetos em andamento e o impacto, para a ciência e a conservação da biodiversidade brasileira, dos estudos e ações desenvolvidos na instituição.

Rogério, como está o panorama da produção científica do JBRJ hoje?

Atualmente a Diretoria de Pesquisa Científica (Dipeq) tem mais de 40 projetos em andamento, abrangendo as diferentes áreas de conhecimento científico produzido no JBRJ, e o número de projetos aprovados em editais de fomento é crescente. A agenda de projetos da Dipeq tem uma diversidade de financiadores, como CNPq, Faperj e Finep, e vários patrocinadores, entre os quais empresas como Natura, Vale e Brasoil. Estabelecemos colaborações científicas com outros países. No momento, aproximadamente 50% dessas colaborações são com instituições dos chamados países desenvolvidos, mas as relações Sul-Sul estão em foco e a proposta é trabalhar mais em conjunto com outros países da América Latina e da África.

Todos os indicadores da produção científica do JBRJ apresentam hoje um padrão de crescimento, principalmente na base Web of Science, a mais importante para a nossa área de conhecimento de “Ciências da Vida”. O mesmo se dá com o fator de impacto dos artigos publicados e no número de citações que nossas publicações recebem. O avanço observado nas atividades de pesquisa deve-se ao engajamento, dedicação e comprometimento dos pesquisadores, tecnologistas, analistas e técnicos, bem como dos coordenadores e assessores da Dipeq. Mas ainda há muito espaço para melhorar, pois a produção científica está muito concentrada em menos da metade dos pesquisadores

Quais os principais projetos da Dipeq neste momento?

lkNa agenda de projetos da Dipeq, alguns são considerados “institucionais”, pois são desenvolvidos a partir de decisões prévias internas com a Diretoria em áreas estratégicas para o JBRJ. Os outros são resultado de financiamentos a projetos elaborados mais autonomamente pelos diferentes grupos de pesquisa. Exemplos de projetos institucionais são aqueles concernentes à melhoria da infraestrutura laboratorial, à atualização da base tecnológica, com a compra e instalação de novos equipamentos. Um deles, em fase final, com financiamento de aproximadamente R$ 1,1 milhões pela Finep, é o de Modernização e Ampliação da Rede Laboratorial do JBRJ. Este projeto e outros, com recursos da Faperj e CNPq, financiaram a criação do Laboratório de Bioquímica, que possibilita estudos sobre substâncias e moléculas relacionadas à flora,. O Laboratório de Biologia Molecular, que faz estudos genéticos de espécies brasileiras, foi totalmente re-equipado, inclusive com um sequenciador automático de DNA, e o Laboratório de Botânica Estrutural ganhou um microscópio confocal, que permite construir imagens tridimensionais de grande definição, sendo importante ferramenta para estudos de biologia celular.

Ainda na linha de infraestrutura, outro projeto institucional da Dipeq é o de ampliação de sua área física, com um novo prédio de 600 m2 desenhado para atender às demandas da rede laboratorial. Esse projeto conta com financiamento de R$ 1,2 milhão da Finep e R$ 1 milhão de contrapartida do próprio JBRJ.

Então esses novos laboratórios e equipamentos abrem o horizonte para diferentes linhas de pesquisa que ainda não vinham sendo muito exploradas na instituição?

Sim, sem sacrificar a pesquisa taxonômica, na qual o JBRJ tem forte tradição, podemos agora incorporar análises que permitem estudos interdisciplinares de grande impacto. Pois quando se tem o taxonomista, o anatomista, o ecólogo, o geneticista e o bioquímico trabalhando em conjunto, são obtidos mais resultados e com maior visibilidade do que quando se trabalha isoladamente.

Um dos grandes projetos de trabalho em rede no JBRJ é o do Herbário Virtual. Como está o andamento desse projeto e qual a sua importância?

O projeto de repatriamento de amostras de plantas brasileiras, o Herbário Virtual/Projeto Reflora, é uma iniciativa do CNPq da qual o JBRJ é o coordenador executivo. A expectativa é de que toda a coleção de amostras de plantas do Herbário (físico) do JBRJ, com quase 600 mil itens, passe a integrar esse Herbário Virtual, que também vai receber centenas de milhares de amostras de plantas brasileiras depositadas nos herbários do Museu Nacional de História Natural de Paris e do Royal Botanical Gardens, Kew, de Londres.

okEsse projeto tem patrocínio do CNPq, Natura e da Vale, está prestes a receber a adesão também da Faperj. A estimativa é de que disponibilize em plataforma digital os dados e imagens em alta resolução de um milhão de amostras. A Faperj deve investir R$ 2 milhões em equipamentos de informática e nos sistemas computacionais do Reflora. Atualmente, o projeto incorpora 1000 novas amostras por dia na base de dados. Seu impacto no Brasil e no mundo para o conhecimento da flora é imenso, pois pesquisadores em qualquer lugar do planeta podem acessá-lo. E sua importância não se restringe à Botânica, mas engloba História e Cultura, além de ter um componente de formação de recursos humanos por meio de bolsas de pesquisa. O lançamento formal do Herbário Virtual será dia 30 de setembro, em cerimônia aqui mesmo na Dipeq.

E como a Dipeq tem atuado mais especificamente na vertente da conservação da biodiversidade?

Desenvolvemos diversos projetos relacionados à conservação e monitoramento da biodiversidade, como por exemplo o projeto “PPBio Mata Atlantica” e o projeto “Restinga: conhecer e conservar” no norte fluminense. Temos também pesquisas, com enfoque conservacionista, sobre a diversidade genética de árvores hoje raras como o pau-brasil e o jequitibá. A Dipeq esta apoiando a publicação, em breve, de um livro elaborado pelo Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora) com a avaliação do risco de extinção de cerca de cinco mil espécies da flora brasileira, a partir de critérios reconhecidos e internacionalmente validados pela União Internacional para Conservação da Natureza (UICN). O trabalho do CNCFlora será um importante subsídio para o Brasil elaborar sua Lista Oficial de Espécies Ameaçadas de Extinção e permitirá cumprir metas da Estratégia Global para Conservação de Plantas e da Convenção pela Diversidade Biológica (CDB), da qual nosso país é signatário. O CNCFlora vem recebendo recursos do Banco Mundial através do Probio II, bem como de outros projetos.

A avaliação do risco de extinção faz parte das metas da Convenção para a Diversidade Biológica, mas antes disso o JBRJ já havia cumprido uma dessas metas, certo?

O JBRJ cumpriu também a primeira das metas colocadas pela CDB, com a publicação on line da Lista da Flora do Brasil em 2010, com dados das mais de 40 mil espécies da nossa flora conhecidas pela ciência. Esse é um projeto contínuo, em constante atualização por centenas de botânicos de várias instituições brasileiras trabalhando em rede, incluindo atualizações sobre novas espécies e novas nomenclaturas. Em parceria com a COPPE/UFRJ, a “Lista da Flora” teve sua plataforma atualizada em 2013. Sua versão impressa é o Catálogo de Plantas e Fungos do Brasil, também lançado em 2010.

Quando se fala em pesquisa no Jardim Botânico, as pessoas pensam principalmente em estudos sobre árvores e ecossistemas terrestres. Mas recentemente uma das pesquisas do JBRJ mereceu uma resenha na revista Science e ela se refere a rodolitos, que são algas calcáreas de grande importância para os ecossistemas marinhos da costa brasileira. Como é a atuação do JBRJ nessa área?

Temos um conjunto de projetos sobre organismos e ecossistemas marinhos. O projeto “Abrolhos: Maior Banco Coralíneo do Atlântico Sul”, por exemplo, conta com recursos públicos e privados, com patrocínio da Brasoil, e integra a Rede Abrolhos de pesquisas. São projetos multidisciplinares e multi-institucionais que resultam no melhor conhecimento das formações de rodolitos e geram propostas de políticas públicas para a proteção de ecossistemas marinhos importantíssimos e ainda pouco conhecidos. Daí sua relevância tanto do ponto de vista científico quanto de conservação. Igualmente, outras pesquisas recentes com participação do JBRJ, financiadas pela empresa StatOil, colaboram para entender os possíveis impactos da prospecção e exploração de óleo e gás nos bancos de rodolitos. Temos também importantes pesquisas sobre a criação de algas com potencial alimentício e industrial.

A Brasoil e a StatOil são empresas petrolíferas. Isso significa que o JBRJ tem credenciamento na Agência Nacional de Petróleo para receber esse tipo de patrocínio?

Para receber recursos de Pesquisa e Desenvolvimento de empresas de petróleo é preciso que a instituição seja credenciada na Agencia Nacional de Petróleo (ANP), e esse credenciamento é temporário. A Diretoria de Pesquisas do JBRJ já havia sido credenciada anteriormente e obteve, após criteriosa análise, um novo credenciamento agora em agosto de 2013, o que nos mantêm aptos a ter parcerias com essas empresas.

Ainda em relação a projetos multi-institucionais qual é a participação do JBRJ no Inventário Florestal Nacional?

Em fase inicial, temos a participação do JBRJ no Inventário Florestal Nacional, um programa de levantamentos florestais em ampla escala geográfica, coordenado pelo Serviço Florestal Brasileiro. O JBRJ atua em duas frentes. A primeira é a identificação de todas as amostras coletadas pelo Inventário no Estado do Rio de Janeiro. A segunda é que o JBRJ será o fiel depositário de pelo menos uma duplicata de cada amostra fértil (isto é, com frutas e/ou flores) dos inventários realizados em todos os estados da federação. Todas essas amostras, oriundas de vários Estados da Federação, vão ser incorporadas ao nosso acervo e integrar o Herbário Virtual do Projeto Reflora.

Falando de parcerias, lembro também que, em maio de 2013, o JBRJ assinou um Termo de Cooperação Técnico-Científica com o Instituto Terra, tendo como objeto estudos botânicos e de restauração ambiental na região do Vale do Rio Doce.

O JBRJ atua também na comunicação científica e planeja, em breve, um novo periódico publicando artigos científicos, certo? No que ele se diferencia da Rodriguésia?

Não é exatamente um novo periódico, mas a reativação da revista “Archivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro”, que estava descontinuada desde a década de 80 e que esperamos que reinicie sua circulação no ano que vem. Hoje nós editamos a Rodriguésia, periódico científico de crescente importância, com artigos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, e que está nas bases Scielo e Scopus. A revista “Archivos” terá um perfil diferente, possibilitando a publicação de artigos mais longos e descritivos, como revisões de floras ou de temas científicos diversos relacionados à Botânica e biodiversidade..O primeiro número, por exemplo, será dedicado a revisões taxonomicas da flora do Estado do Rio de Janeiro, com autoria de pesquisadores da casa e de outras instituições.

 

 

 

 

 

 

 

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