Projeto Parnaso completa um ano
28/3/2008

O projeto de pesquisa de complementação do inventário da flora do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, completa um ano e se aproxima do ideal do conhecimento da biodiversidade da flora local. Com o objetivo de atualizar e ampliar a lista de espécies da flora do parque, o projeto originário de um termo de cooperação entre o Parque Nacional e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, vem atuando hoje em locais pouco visitados ou sem registro de coleta.

O pesquisador do Jardim Botânico e coordenador do projeto Marcus Nadruz Coelho resume suas principais características.

“Criado em 1939 e considerado o segundo mais antigo Parque Nacional brasileiro, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos localiza-se na Serra do Mar, compreendendo quatro municípios do Rio de Janeiro: Magé, Guapimirim, Petrópolis e Teresópolis. Possui, atualmente, 10653 ha.

A vegetação faz parte do complexo Mata Atlântica, com quatro fitofisionomias: Floresta Ombrófila Densa Baixo-Montana, Montana, Alto-Montana e Campos de Altitude, tendo seu gradiente altitudinal variando de cerca de 200 a 2260 m.

A área do Parque Nacional da Serra dos Órgãos está inserida no Hotspot da Mata Atlântica (área crítica com prioridade de conservação por conter espécies endêmicas e a vegetação possuir um alto grau de ameaça – com pelo menos 75% da área destruída) e é considerado, pela WWF e IUCN, um Centro de Diversidade de Plantas, que compreende as cadeias de montanhas do Rio de Janeiro, por apresentar uma expressiva riqueza florística e um alto grau de endemismo.

Durante muitos anos várias pesquisas foram desenvolvidas na área do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, dentre elas: anatomia, filogenia, biologia reprodutiva, germoplasma, biossistemática, polinização, conservação, fitoquímica, ecologia e taxonomia. Os trabalhos taxonômicos foram muitos, entre dissertações, teses e floras regionais, porém, sem uma ordenação nos resultados que refletisse a flora do Parque.

Desde 1814, quando Sellow (naturalista alemão) esteve no Brasil, diversas coletas de plantas foram desenvolvidas por botânicos, entre estrangeiros e brasileiros, tais como: Beyrich, Gardner, Glaziou, Langsdorff, Martius, Schott, Brade, Rizzini, entre outros mais recentes.

Dentre todos, quem mais se destacou foi Rizzini, que em 1954 publicou a “Flora Organensis” nos Arquivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, resultando um total de 2010 espécies entre Dicotiledôneas, Monocotiledôneas, Pteridófitas e Briófitas.

O fato de que, na grande maioria das coletas realizadas na área do Parque, as trilhas visitadas são praticamente as mesmas, a inexistências de registros botânicos em áreas de difícil acesso e ocorrência de diferentes fitofisionomias, conseqüentemente proporcionando uma riqueza de espécies, justificou a elaboração do Projeto Flora do Parque Nacional da Serra dos Órgãos.

O Projeto tem como objetivos a atualização e ampliação da lista de espécies da flora do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, a incrementação de coletas de espécimes em áreas pouco amostradas, a ampliação e representação da flora do Parque no herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e na coleção de referência da flora local do Parque, bem como em outros herbários, através de permutas. Se propõe também incentivar a realização de novos projetos de pesquisas botânicas na área do Parque, ampliando a participação de pesquisadores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e de outras instituições. Conta, também, com a formação de recursos humanos em estudos de campo (na coleta e herborização de material), na divulgação dos resultados em eventos científicos, e na sua publicação em revistas científicas nacionais e internacionais.

O período proposto para o desenvolvimento do Projeto é de dois anos, com quatro expedições ao ano. Até o momento, as áreas visitadas foram a Pedra do Sino e montanhas vizinhas, os vales dos Rios Bananal e Soberbo, e o distrito de Santo Aleixo em Magé.

A metodologia utilizada nos trabalhos de campo envolve coletas aleatórias de material em flor e/ou fruto, registros daqueles somente observados, fotografias e geo-referenciamento da grande maioria do material coletado.

Como resultado dos trabalhos, até o momento realizado, contabilizou-se 290 espécimes em 91 famílias, 199 gêneros e cerca de 175 espécies (soma-se a esses números informações sobre coletas repassadas por botânicos que realizaram algum tipo de pesquisa na área do Parque).
As famílias mais representativas foram Asteraceae (31 espécies), Araceae (28 espécies) e Rubiaceae (15 espécies). Esses números não refletem, ainda, a realidade da flora do Parque, em vista das duas primeiras famílias serem objetos de estudos de pesquisadores que vêm participando dos trabalhos de coleta desde o início dos trabalhos.

Os endemismos encontrados para o Parque, até o momento, são exemplificados pelas seguintes espécies: Sinningia cardinalis (Gesneriaceae), Baccharis ciliata e B. pseudovaccinioides (Ateraceae). Baccharis grandimucronata e Vriesea itatiaiae (Bromeliaceae), têm ocorrência, também, somente no Parque Nacional do Itatiaia.

As espécies Macropodina bradei (Asteraceae) e Prepusa hookeriana (Gentianaceae), são consideradas raras e ameaçadas de extinção, respectivamente.

O registro de três espécies, consideradas extintas, são informadas como ocorridas no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, todas pertencentes a família Rubiaceae: Hindsia breviflora, H. cuculata e H. violacea.

A possível ocorrência de três espécies novas para a área do Parque está sendo considerada, pertencem as famílias Araceae (Anthurium sp.), Dioscoriaceae (Dioscorea sp.) e Loganiaceae (Strychnos sp.).

Os resultados, até aqui amostrados, reforçam a continuidade nos trabalhos de coleta nas diversas fitofisinomias da área do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, visando o conhecimento, mais próximo do ideal, da biodiversidade da flora local.


 

 

 

 

 

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